SHE WOLF convida MUITO PRAZER
- giuliallupo
- 30 de abr.
- 6 min de leitura
Alguns artistas falam sobre técnica. Outros falam sobre mercado.
MUITO PRAZER fala sobre tempo, fé em movimento, responsabilidade afetiva e sobre continuar criando mesmo quando tudo parece incerto.
Nesta conversa, ele revela um percurso que não nasce do privilégio, mas da insistência. Fala de conflitos familiares, da batalha financeira constante, da paternidade como transformação radical e da arte como uma forma de magia que atravessa quem cria e quem observa.
Há algo muito honesto nesta entrevista: não existe romantização. Existe consciência. Existe processo. Existe camada.
Uma conversa sobre permanência, sobre energia interna e sobre o que sustenta um artista quando o mundo muda o tempo todo.
Vale ler até o fim.

Você tem um lema pessoal que orienta a forma como você vive ou trabalha?
“Tudo pode acontecer, inclusive nada.” Frase que li há muitos anos e que segue atual na minha vida. Ela me mantém presente e lúcido. Mesmo quando não alcanço meus objetivos, lembro que nada é garantido e isso me traz calma.
No que você acredita?
Acredito em muitas coisas e desacredito de várias outras. Depende do contexto, da experiência, do momento. Minha fé é movimento.
Seu trabalho tem te feito feliz?
Muito. O que fazemos é uma espécie de magia que vem da alma, do coração. Mas não é um mar de rosas. Existe batalha no fazer, na evolução, nas mudanças. Ainda assim, acredito que vim a esta vida para fazer isso.
Seu trabalho já fez outras pessoas felizes?
Sim. Como disse, ele é magia. Cada obra carrega uma intensidade energética que se conecta com quem a observa. Às vezes essa conexão é diferente daquilo que eu propus, mas toca lugares muito íntimos das pessoas e isso é muito potente.
Explique sua arte em uma palavra.
Constante, camadas.
Como você se reinventa em um mundo em constante mudança?
Sigo leal aos meus sentimentos. Me permito experimentar e observo o que o erro me ensina. O mundo, muitas vezes vazio em suas transformações, não pode interferir na minha energia interna. Às vezes interfere, claro mas olho para trás, vejo quem fui, olho para frente e vejo quem sou e quem ainda posso me tornar.
O que você acha que um artista nunca deveria fazer?
Nunca deveria parar de criar pintar, dançar, cantar, sorrir, descansar. E nunca deveria acreditar que tudo é apenas dinheiro ou fama. Abrir mão do que é essencial hoje será cobrado no futuro.
O que você diria a quem está começando agora no mundo da arte?
Respire. Escute quem te acrescenta e respeita seu trabalho. Analise críticas negativas com maturidade. Experimente mais. Construa boas relações e trocas verdadeiras. Seja justo com sua arte e não permita que críticas minem sua força criativa. Olhe para dentro e coloque no mundo aquilo que você é, mesmo que não faça sentido para outros. Agradeça quem te ajuda e esteja disposto a ajudar também. Busque ser feliz, mesmo em tempos escuros seu trabalho precisa da sua lucidez.
Qual foi a situação mais complexa que você já viveu profissionalmente?
A questão financeira. A grana sempre será um ponto complexo na vida de um artista.
Você teve que fazer muitos sacrifícios para chegar onde está hoje? Valeu a pena?
Não vejo como sacrifícios, mas como evolução. Cada tropeço virou aprendizado; cada conquista, agradecimento. E vale a pena todos os dias.
Sua família te apoiou na escolha de ser artista?
Minha família, de origem pobre, nunca teve contato real com a arte. Para eles, ser artista parecia algo distante, quase sem futuro. Meu avô paterno, que era delegado de polícia, nas horas vagas pintava e fazia caligrafias. Meu pai cresceu com esse contato e, com ele, nunca tive problemas em relação à minha escolha. Já com minha mãe era diferente: havia conflitos. Ela dizia que, para ser artista, eu teria que ter vindo de uma família “rica”, que aquilo não dava futuro, que eu precisava trabalhar de carteira assinada, ter cesta básica e 13º salário. Era uma preocupação legítima, mas difícil para mim naquele momento.
Quando você era criança, o que queria ser quando crescesse e por quê?
Quando criança eu não tinha muitos objetivos claros. Repetia muito o que ouvia dos adultos “vou ser bombeiro”, por exemplo. Não era um sonho estruturado, era mais uma reprodução do que parecia possível naquele contexto.
O que o seu eu de hoje diria para o seu eu do passado?
Diria para acreditar mais em si mesmo. Que sempre será difícil, mas que é possível atravessar. Evitar certas amizades, guardar dinheiro, investir também em algo além da arte porque nem sempre ela paga as contas (risos). E, principalmente, experimentar mais, testar outras formas de fazer arte.
O que você considera ser a melhor coisa do Brasil e a pior?
A cultura é, para mim, a melhor coisa do Brasil. A pior é o egoísmo aliado à falta de educação.
Pelo que você se sente mais grato na vida?
Sou grato pela família que construí, por poder viver da minha arte, por estar vivo e saudável. Nos últimos anos perdi amigos queridos de forma muito triste pessoas talentosas que deram a vida pela arte. Poder continuar aqui, criando, é uma grande generosidade da vida.
Como paternidade impactou a sua relação com o tempo e com a criação?
O nascimento das minhas meninas mudou completamente o ritmo da minha vida. Antes eu vivia sozinho e podia fazer tudo no meu tempo. Hoje, o tempo é o bem mais precioso. Preciso dividi-lo entre ser artista e ser pai. Aprendi que o TEMPO é um orixá, algo sagrado a ser respeitado.
Na criação, aprendo diariamente com a simplicidade delas. A arte precisa dessa leveza: deixar surgir, não forçar, permitir o erro até que a forma amadureça.
O que mudou na sua forma de trabalhar depois que você se tornou pai?
Ser responsável por outra vida transforma tudo. Ser artista é integral; ser pai também. Não existe separação clara, existe adaptação. Hoje entendo que preciso trazer mais essa experiência para o meu trabalho, porque ela é a minha realidade.
A sua arte conversa, de alguma forma, com a experiência de ser pai?
Sim. Hoje entendo que minha arte carrega mais camadas de cuidado, de escuta e de responsabilidade afetiva.
O que você aprendeu sobre si mesmo desde que se tornou responsável por outra vida?
Aprendi o quanto eu era imaturo, defensivo, medroso e impaciente. Com elas, precisei acessar essas partes e encarar meus próprios desencaixes. Se quero ser um pai que deixa boas referências, preciso viver com lucidez.
Que tipo de exemplo você gostaria de deixar para suas filhas?
Gentileza, coragem, simplicidade, calma e alegria. Me sinto feliz por ser um pai artista e proporcionar a elas uma vivência onde a arte está presente no cotidiano. Toda criança começa rabiscando; depois muitas abandonam isso. Quero que, mesmo que escolham outros caminhos, mantenham viva essa memória criativa.
Como você se imagina daqui a dez anos?
Daqui a dez anos quero estar mais forte na minha arte e alcançar os lugares onde ela deve estar. Quero que meu trabalho ocupe espaços maiores, mas sem perder a essência.
Qual foi o objetivo mais importante que você já alcançou?
Cada passo conquistado com meu trabalho é importante. Não consigo hierarquizar. Tudo vira conquista quando você entende tudo como aprendizado.
Se pudesse escolher qualquer pessoa no mundo, quem você convidaria para jantar?
Convidaria alguém que tivesse uma escuta profunda e verdadeira. Mais do que fama, me interessa a troca sincera.
O que seria um dia perfeito para você?
Um dia ensolarado já é um ótimo começo. Sol me organiza por dentro.
Qual obra ou projeto você considera o mais importante da sua trajetória?
Não gosto de classificar. Tudo se torna importante quando você entende o processo como aprendizado. Até as obras que não gostei ou em que errei muito me serviram para evoluir e estudar mais.
O que você desaprendeu ao longo da sua trajetória?
Acredito mais em transformação do que em desaprender. Corpo, mente e espírito guardam memórias. O que muda é que deixamos para trás o que não cabe mais, para dar espaço ao que se encaixa melhor.
O que mais mudou em você desde que começou sua carreira artística?
Sempre tive um olhar artístico. Me reconheço no mesmo olhar de antes. Tudo ao meu redor é arte e subsídio para o meu trabalho.
Instagram Artista @muitoprazer__
Créditos das fotos inseridas na capa e na galeria: cortesia do artista, também incluem projetos desenvolvidos junto a She Wolf by Giulia (projetos nos escritórios da Netflix e Spotify).
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