SHE WOLF convida LUNA BUSCHINELLI
- giuliallupo
- 22 de mai.
- 15 min de leitura
Existe um tipo de artista que não cria apenas imagens, mas universos inteiros. Conversando com Luna Buschinelli, ficou muito claro que sua arte nasce exatamente desse lugar: da imaginação como refúgio, da sensibilidade como linguagem e da coragem de continuar acreditando na própria visão de mundo, mesmo quando ela ainda não é compreendida pelos outros.
Ao longo da entrevista, Luna fala sobre ansiedade, transformação, solidão, perseverança e sobre como a arte pode atravessar emocionalmente a vida das pessoas. Entre referências como Tim Burton e Hayao Miyazaki, ela revela uma trajetória construída entre o graffiti, o muralismo, a animação, o cinema e a criação de mundos que misturam fantasia e realidade.
Mais do que uma conversa sobre carreira, essa entrevista é um mergulho na mente de uma artista que escolheu permanecer fiel à própria imaginação.

Se pudesse escolher qualquer pessoa no mundo, quem você convidaria para jantar?
Essa é uma pergunta difícil, porque existem muitas pessoas criativas com quem eu adoraria conversar. Mas, hoje, acho que escolheria o Hayao Miyazaki, criador do Studio Ghibli.
O trabalho dele me inspira profundamente, principalmente pela capacidade de criar universos tão vivos, sensíveis e cheios de significado. Existe uma delicadeza muito grande na forma como ele olha para o mundo, mas também essa profundidade crítica, temperada de humanidade dessa forma tão potente.
Eu admiro muitos artistas que conseguem construir algo que vai além de uma obra isolada, que criam universos próprios, quase como um idioma emocional. E sinto que isso conversa muito com algo que também busco no meu trabalho. Sobre o Miyazaki, gostaria muito de aprender mais com ele.
O que seria um dia perfeito para você?
Acho que um dia perfeito para mim é, antes de tudo, um dia em que eu estou bem e consigo viver as pequenas alegrias da vida.
Não é necessariamente algo grandioso. É um dia em que eu consigo criar, pintar sem pressa ou pretensão, ter tempo para pensar, tomar um chá, passar tempo com as pessoas que amo, ver minha família, estar com amigos, trocar ideias com alguém que me inspire ou admire meu trabalho.
Eu gosto muito dessas pequenas experiências que parecem simples, mas me preenchem profundamente. Desde montar um Lego, jogar cartinhas com amigos, pintar enquanto converso com alguém, ir a um lugar onde posso trocar experiências e ouvir histórias.
Acho que, no fundo, um dia perfeito pra mim é um dia vivido com calma. Um dia em que eu não estou presa nessa urgência constante que muitas vezes a vida e o trabalho colocam na gente. Um dia em que existe espaço para estar presente, observar, criar e simplesmente aproveitar.
Você tem um lema pessoal que orienta a forma como você vive ou trabalha?
“Acredite na sua visão de mundo”. Tenho até tatuada a frase Believe my decision na costela, algo que fiz durante a adolescência justamente para reforçar isso para mim mesma. Sempre tive essa tendência muito grande em duvidar de mim mesma. Então, de certa forma, é um lembrete diário: confiar nas minhas escolhas e seguir, mesmo que às vezes no escuro, sem ter todas as respostas.
Quando você era criança, o que queria ser quando crescesse e por quê?
Eu sempre fui uma criança muito criativa. Gostava de desenhar, fazer pequenas animações, stop motion, brincar com vídeo e inventar histórias. Hoje eu percebo que tudo isso acabou virando parte do que eu faço, tanto na minha arte quanto na forma como me comunico nas redes.
Mas, curiosamente, eu não cresci pensando necessariamente em ser artista. Passei por várias possibilidades: já quis ser arquiteta, médica, escritora… profissões que, de alguma forma, tinham um lado criativo ou imaginativo que me atraía bastante. A arte me atravessou ali pelos 14/15 anos de um jeito muito forte, foi uma coisa da qual eu simplesmente não consegui fugir. Em algum momento eu entendi que esse era o meu caminho e hoje é algo que eu amo profundamente fazer.
Sua família te apoiou na escolha de ser artista?
No começo, minha família ficou um pouco assustada, principalmente porque eu comecei no graffiti. Existia um medo real de acontecer alguma coisa comigo na rua, ainda mais por eu ser mulher e muitas vezes sair sozinha para pintar. Mas, conforme eles foram vendo o tamanho da minha paixão e a seriedade com que eu levava aquilo esse medo foi se transformando em apoio. Eu tive muito incentivo da minha família, principalmente da minha mãe e dos meus avós.
Como eu era muito tímida, lembro que no início da minha trajetória minha mãe me levava para eventos, me acompanhava bastante. E eu sempre fui muito curiosa, queria entender aquele universo, estar presente, fazer parte daquela cena.
Então, olhando para trás, eu vejo que esse apoio foi um pilar muito importante para eu continuar acreditando no meu caminho como artista.
Explique sua arte em uma frase ou, se preferir, em uma palavra.
Se eu tivesse que resumir minha arte em uma frase, seria uma dedicatória do livro A Darker Shade of Magic: “For the ones who dream of stranger worlds.”
Acho que minha arte existe muito nesse lugar, feita para pessoas que imaginam outros mundos possíveis, que enxergam camadas invisíveis no cotidiano comum, que encontram refúgio e esperança na imaginação. Me interesso muito por esse espaço entre realidade factual e fantasia, aquele universo que existe apenas dentro da nossa cabeça.
No que você acredita?
Acredito muito na potência de acreditar em si mesmo. Parece simples, mas acho que é uma das coisas mais difíceis e mais importantes que a gente aprende na vida.
Ao longo da minha trajetória, eu ouvi muitos “nãos”, e eles mexeram comigo, claro. Mas também me ensinaram algo importante: o não do outro nem sempre significa um limite real para aquilo que você sonha ou acredita. Muitas vezes, ele fala mais sobre a forma como aquela pessoa enxerga o mundo do que sobre o que realmente é possível.
Eu acredito muito em visão, naquela sensação de enxergar algo antes, de acreditar em um caminho mesmo quando ele ainda não está totalmente claro para os outros. Nem sempre as pessoas vão entender aquilo que você está tentando construir, inclusive pessoas experientes, e tudo bem. Isso não significa ignorar críticas ou deixar de aprender, muito pelo contrário, acho muito importante escutar, isso pode nos ajudar demais a amadurecer. Mas aprendi que existe algo muito potente em confiar no próprio olhar e não desistir de si mesmo.
Então, hoje, eu diria que acredito nisso, na perseverança, e na confiança da própria visão de mundo. A gente tem que acreditar muito para construir algo que só nós conseguimos enxergar no começo, o importante é não perder o foco ou desistir.
Seu trabalho tem te feito feliz?
Sim, hoje me sinto muito realizada como artista e como ser humano por estar onde estou.
Mas acho importante também dizer que isso nem sempre foi linear. Como comecei muito cedo, já existiram momentos da minha carreira em que eu cheguei a sentir um certo distanciamento do que eu fazia, momentos em que meu trabalho já não me representava tanto, estética ou conceitualmente.
E eu acho que existe uma coragem muito importante em mudar, em se permitir crescer e ser mais fiel a quem você é hoje. A gente muda ao longo da vida, tanto em gostos, interesses, como também acabamos amadurecendo nossa visão de mundo também.
Hoje eu sinto que sou muito fiel ao que eu acredito e à minha forma de enxergar o mundo. Acredito que isso acaba atravessando o trabalho e chegando nas pessoas também.
Quando a gente consegue estar inteiro no que faz, colocar personalidade, verdade e vulnerabilidade naquilo, existe uma felicidade muito profunda em ser sincero consigo mesmo. E hoje eu me sinto assim. Muito completa e feliz com o que venho criando.
Seu trabalho já fez outras pessoas felizes?
Sim! E isso talvez seja uma das coisas mais bonitas do meu trabalho.
Quando a gente trabalha com mural e arte pública, nem sempre sabe exatamente como aquilo atravessa as pessoas. Muitas vezes alguém vê um trabalho seu na cidade e você nunca vai saber da história daquela pessoa ou o impacto que aquela imagem teve na vida dela. Mas, de uns tempos para cá, especialmente com a internet e com o crescimento das minhas redes, muitas pessoas começaram a chegar até mim para compartilhar essas histórias. Eu percebo que meu trabalho atravessa pessoas muito diferentes, de contextos diferentes e de uma forma emocional muito forte.
Já ouvi relatos que me marcaram profundamente, tanto de pessoas que encontraram um pouco de esperança ao ver um trabalho meu num momento difícil, enquanto um familiar estava doente, quanto outras que decidiram comprar um celular só para poder fotografar um mural meu. Muitos jovens chegam em mim também até hoje porque viram minha arte na rua ou até em material escolar e sentem essa necessidade em me escrever depois, acho isso muito lindo.
Acho que meu trabalho carrega um lado lúdico, mas também um certo afeto, algo que convida as pessoas a sentirem alguma coisa. Isso me emociona muito, porque, para mim, a arte existe para criar conexão.
Então, quando eu recebo esses relatos, eu sinto que meu propósito está acontecendo de verdade. É um sentimento muito bonito perceber que mesmo a pequenos passos, feitos ao longo de tantos anos, a arte vai chegando nas pessoas e, às vezes, transformando algo nelas, mesmo que apenas por um instante.
O que você diria a quem está começando agora no mundo da arte?
Continue curioso, aprendendo, experimentando e correndo atrás daquilo que você acredita.
Acho que, às vezes, existe uma fantasia de que alguém vai aparecer, descobrir você e mudar sua vida de repente. Embora isso possa acontecer em alguns casos específicos, acredito que a maioria das coisas acontece para quem dá a cara a tapa, para quem participa, insiste, se expõe, compartilha o trabalho e continua tentando.
Então não tenha medo de começar. Medo de errar, de mostrar trabalhos ainda imperfeitos ou de sentir vergonha no começo. Todo mundo começa de algum lugar.
No fim, acho que é muito mais frustrante ver o tempo passar e perceber que você não tentou materializar aquilo em que acreditava. Então vai atrás do que faz sentido para você e continue persistindo.
Qual foi a situação mais complexa que você já viveu profissionalmente?
A situação mais complexa que vivi profissionalmente teve muito a ver com identidade, com me reconhecer, ou deixar de me reconhecer dentro no meu próprio trabalho.
Como comecei muito nova, chegou um momento em que eu percebi que tinha mudado bastante. Meus gostos mudaram, minha visão de mundo amadureceu, minhas referências também. Só que meu trabalho já era relativamente consolidado dentro do meu nicho, já tinha reconhecimento, já funcionava, vendia. E isso gerou um medo muito grande de mudar.
Fiquei alguns anos muito presa nessa ideia de: “e se eu testar algo novo e perder aquilo que construí?”. Mas, ao mesmo tempo, eu já não me reconhecia completamente no que estava fazendo. E isso foi muito difícil.
Mas entendi que não valia a pena continuar algo se eu não fosse sincera comigo mesma. Porque acho que isso inevitavelmente atravessa o trabalho, as pessoas percebem quando você está inteiro no que faz, quando está feliz, curioso e vivo criativamente.
Para mim, arte não tem fórmula fixa. Ela é uma construção viva, uma mistura complexa de sentimentos, repertório e transformação. Às vezes penso muito nisso olhando para músicos e bandas que admiro muito: muitos artistas são criticados quando mudam de direção, mas depois essas mudanças acabam sendo exatamente aquilo que faz o trabalho amadurecer.
Acho que existe uma coragem necessária em continuar sendo fiel a si mesmo, mesmo quando isso envolve risco. E esse talvez tenha sido um dos maiores desafios da minha trajetória.
Outra coisa muito difícil foi a solidão. Mais uma vez por ter começado muito nova no graffiti, entrei num momento em que a maioria das pessoas da cena já era mais velha. Eu fiquei meio num “entre-lugar”: não pertencia totalmente à geração anterior e ainda não existia essa nova geração na rua de forma tão presente quanto existe hoje.
Então fazer arte, durante muito tempo, foi um processo muito solitário para mim. Eu sentia falta de pares, de pertencimento, de ter pessoas vivendo experiências parecidas. Hoje isso mudou bastante, me sinto muito mais acolhida, entendo melhor meu lugar no mundo e do meu trabalho.
Pelo que você se sente mais grata na vida?
São muitos os motivos pelos quais eu me sinto grata. Mas acho que, acima de tudo, sinto muita gratidão pelas pessoas que me acompanham.
Pela minha família, que sempre me apoiou numa escolha que não é simples e nem previsível. Pelas pessoas que acreditaram em mim em diferentes momentos da minha trajetória, especialmente no começo, quando tudo ainda era muito incerto e eu estava tentando encontrar meu caminho. Também sinto muita gratidão pelas oportunidades que tive e pelas trocas que a arte me proporcionou.
Meu trabalho já me levou para lugares que eu nunca imaginei, me permitiu atravessar fronteiras, conhecer pessoas incríveis e até ser reconhecida por artistas que admiro profundamente, como o Tim Burton, alguém que marcou muito meu imaginário desde criança. Isso ainda me emociona bastante.
Acho que, no meio artístico, muitas vezes a gente passa por momentos de dúvida, de insegurança, de sentir que talvez não esteja sendo visto ou compreendido. Então, hoje, conseguir olhar para trás e perceber tudo o que construí me faz sentir profundamente grata.
Mas, mais do que uma sensação, eu acho que gratidão também é responsabilidade. Tenho um desejo muito forte de honrar todas as pessoas que acreditaram em mim, continuando a estudando, me aprimorando e tentando fazer um trabalho cada vez mais sincero e significativo.
Qual foi o objetivo mais importante que você já alcançou?
Acho que o objetivo mais importante que já alcancei foi ter acreditado no meu próprio sonho, mesmo ele não parecendo um caminho muito convencional ou necessariamente fácil.
Quando eu era criança, eu inventava histórias o tempo inteiro. Sempre tive um desejo muito grande de criar mundos, personagens, atmosferas… algo vivo, um universo que pudesse conversar com as pessoas de forma profunda. E, de certa forma, esse sempre foi o meu maior sonho, criar algo que existisse para além de uma imagem, para além de um desenho ou de um mural.
Eu admiro muito o Tim Burton justamente por isso, porque ele criou um universo próprio, algo que atravessa cinema, estética, narrativa e atinge esse campo afetivo para tantas pessoas. Hoje eu sinto que estou começando a caminhar nessa mesma direção, construindo algo que tem uma identidade muito minha.
Meu trabalho já passou pelo graffiti, pela pintura, por animações em painéis de LED, quadrinhos, hoje em projetos ligados ao cinema… hoje eu sinto que esse universo que eu imaginava quando criança começou, de fato, a ganhar forma. Ainda está sendo construído, claro, mas já existe, e isso é muito emocionante para mim.
Além disso, conseguir viver da minha arte, ser reconhecida por pessoas que admiro profundamente e perceber que meu trabalho atravessa outras pessoas também é uma conquista enorme para mim. Às vezes ainda parece um pouco inacreditável.
Se a pequena Luna visse onde estou hoje, acho que ela ficaria extremamente entusiasmada, me admiraria muito. E isso talvez seja a medida mais bonita de conquista para mim. Porque, no fim, continuo sendo uma pessoa comum, uma menina que gostava de desenhar e decidiu acreditar de verdade no seu próprio sonho.
O que você considera ser a melhor coisa do Brasil e a pior?
Acho que a melhor coisa do Brasil acaba sendo a criatividade e simplicidade das pessoas. Existe uma capacidade muito única de inventar, adaptar, misturar referências e encontrar caminhos mesmo em contextos difíceis. Não digo isso romantizando a falta de estrutura, até porque, para mim, uma das piores coisas do país é justamente a desigualdade de acesso, a precariedade e a dificuldade de proporcionar conhecimento e oportunidade para tanta gente.
Mas existe uma dualidade muito forte nisso: ao mesmo tempo em que o Brasil falha estruturalmente, ele produz uma potência criativa enorme. Acho que não é à toa que tantos artistas brasileiros, especialmente na arte urbana e nos murais, ganham destaque lá fora. Existe um jeito muito nosso de enxergar a vida, de improvisar, de criar imagens e narrativas a partir do caos.
O brasileiro tem uma criatividade muito própria, quase uma inteligência afetiva de sobrevivência, e isso, para mim, é uma das coisas mais bonitas do nosso país.
Você teve que fazer muitos sacrifícios para chegar onde está hoje? Valeu a pena?
Tiveram muitos sacrifícios para chegar onde estou hoje, e acho que isso faz parte da trajetória de muitos artistas, embora isso nem sempre seja visível para quem vê apenas o resultado final.
Muitas vezes precisei confiar em oportunidades cujo retorno eu nem sabia qual seria. Em alguns momentos trabalhei sem garantia de retorno financeiro, apostando no potencial da experiência, no aprendizado ou simplesmente no fato de estar colocando minha arte no mundo. Hoje, inclusive, sou muito cuidadosa com isso: acredito profundamente na importância de precificar e valorizar o trabalho artístico. Mas também entendo que existem exceções estratégicas, momentos em que vale a pena entender o que aquela oportunidade pode gerar para você a longo prazo.
Além disso, houve muito trabalho invisível. Produção, organização, resolver problemas sozinha, sustentar projetos inteiros emocionalmente e logicamente. A maioria das pessoas enxergam apenas resultados, mas não imaginam o quanto de esforço, insegurança e exaustão existe por trás de tornar algo real.
Um exemplo marcante pra mim foi o projeto que realizei com o cineasta Tim Burton. Além de toda parte artística tive que lidar com toda produção e organização do projeto praticamente sozinha, em um momento em que eu estava emocionalmente muito fragilizada. Foi extremamente desgastante, e até hoje me pergunto como consegui atravessar aquilo. Mas quando a oportunidade apareceu, eu senti que não podia deixar passar. Era algo em que eu precisava acreditar e foi muito gratificante no final ver isso se materializar. Me senti muito mais forte depois também, às vezes a gente descobre uma força na gente que nem imagina que tem.
O que o seu eu de hoje diria para o seu eu do passado?
Acho que eu diria coisas que de certa forma continuo afirmando para mim mesma até hoje: tenha calma, confie no processo e continue acreditando.
Eu sempre fui muito focada, sempre corri muito atrás das oportunidades, mas também sempre fui uma pessoa bastante ansiosa. E a arte foi me ensinando algo muito importante: nem tudo precisa acontecer no tempo da urgência. Aprender, estudar, amadurecer o olhar… tudo isso também faz parte do processo criativo.
Eu diria para a pequena Luna não se desesperar tanto nos momentos de bloqueio ou hiato. Quando eu era mais nova, às vezes passava um período sem desenhar e achava que nunca mais conseguiria voltar a criar. Hoje eu entendo que isso faz parte da vida. Às vezes a pausa também faz parte da criação. É até engraçado, porque já aconteceu de eu passar meses sem pintar e, quando voltava para uma tela, percebia que eu tinha evoluído bastante tecnicamente, e acredito que é porque, mesmo quando o artista parece parado, ele nunca está realmente estagnado, ele está observando, absorvendo, amadurecendo.
Qual obra ou projeto você considera o mais importante da sua trajetória?
Acho que tive projetos muito importantes, como o trabalho com o Tim Burton ou a colaboração com a Crunchyroll, mas talvez o mais precioso para mim seja o mural Meu Herói Esperança, que muita gente chama carinhosamente de “Príncipezinho”.
Eu fiz esse trabalho na pandemia querendo transmitir esperança num momento muito difícil e é incrível perceber que aquilo que eu criei anos atrás ainda alcança as pessoas do jeito tão mágico. Até hoje recebo mensagens e agradecimentos especiais sobre como esse mural mexe com as pessoas. Muita gente fala do conforto emocional que ele trouxe.
Então, mesmo não sendo o maior projeto da minha carreira, talvez seja o mais importante pelo impacto que teve na vida pessoal das pessoas. Isso mexe muito comigo!
Como você se reinventa em um mundo em constante mudança?
Acho que eu me reinvento me permitindo. O mundo muda muito rápido hoje, e eu acho que a gente também acaba estando em constante mudança junto com ele.
Tento sempre me abrir para novas referências, novas formas de criar, novas tecnologias, novas maneiras de enxergar as coisas. Acho importante não ficar preso numa ideia fixa de quem você é ou precisa fazer.
Ao mesmo tempo, eu tento continuar fiel ao meu interior, ao que eu acredito. Porque acho que se reinventar não é virar outra pessoa, mas exatamente encontrar novas formas de continuar sendo você.
O que você desaprendeu ao longo da sua trajetória?
Colocar tanto peso nas palavras e expectativas de outras pessoas, por mais incríveis e geniais sejam.
Durante muito tempo, eu ouvia comentários de outros artistas, curadores ou pessoas que admirava muito dentro do universo da arte e sentia como se aquilo pudesse definir quem eu era, ou até mesmo quem eu poderia me tornar. Como se uma opinião tivesse o poder de validar ou invalidar todo meu caminho.
Hoje, continuo acreditando muito no valor da crítica construtiva e do aprendizado com o outro, mas entendo que nenhuma voz externa pode ser maior do que a sua própria percepção sobre aquilo em que você acredita.
O que mais mudou em você desde que começou sua carreira artística?
Acho que a coisa que mais mudou em mim foi a forma de lidar com a ansiedade. Quando comecei tinha muita pressa, muita vontade de chegar em algum lugar, de ser alguém, de fazer as coisas acontecerem rápido.
Acho que, com o tempo, fui entendendo que construir carreira é uma coisa de formiguinha mesmo. Vai acontecendo aos poucos, tijolinho por tijolinho, errando, aprendendo, e insistindo.
Eu continuo sendo uma pessoa ansiosa, mas hoje sou muito mais paciente e centrada. Acho que entendi que é quase como uma bola de neve que começa muito pequena, mas vai crescendo conforme você continua caminhando.
Hoje eu não tenho mais tanta pressa. Aprendi a confiar muito mais no tempo das coisas.
O que você acha que um artista nunca deveria fazer?
Se acomodar. Admiro muito o David Hockney por conta disso. Ele é um artista enorme, reconhecido há muitos anos, mas nunca deixou de experimentar. Ficou conhecido pelas pinturas de piscina, encantou gerações, e mesmo assim continuou testando novas linguagens, fazendo desenho digital, explorando materiais diferentes.
Isso me inspira muito, porque acho que criar exige curiosidade. Acho perigoso quando um artista vira prisioneiro de uma fórmula, de uma estética ou até de uma expectativa sobre quem ele “deveria” ser. Continue surpreendendo!
Como você se imagina daqui a dez anos?
Daqui a dez anos, eu me imagino uma artista ainda mais consolidada e expandindo muito mais o alcance do meu trabalho. Embora eu já tenha uma trajetória sólida dentro do meu meio, eu gostaria de conversar com um público ainda mais amplo e aproximar mais pessoas da arte.
Acho que o muralismo já têm uma potência muito bonita nesse sentido, porque a arte pública convida pessoas que talvez nunca entrariam numa galeria a terem contato com a arte. Mais recentemente, eu também tenho tentado fazer isso através das redes, criando conteúdos que aproximem as pessoas da arte, da cultura e do pensamento de uma forma mais acessível.
Tenho um desejo muito forte de alcançar mais brasileiros, principalmente porque acredito que, no nosso país, o acesso à cultura ainda é muito desigual. Então, se eu pudesse imaginar meu futuro, eu gostaria de olhar para trás e perceber que consegui inspirar outros artistas, incentivar mais pessoas a criarem, democratizar um pouco mais o acesso à arte e ampliar ainda mais essa conversa que já comecei a traçar hoje. Espero continuar usando meu trabalho para criar conexão, sensibilidade e reflexão. Acho que, nos tempos em que a gente vive, a arte tem um papel muito importante de fazer as pessoas se reconectarem consigo mesmas e com o mundo ao nosso redor.
Instagram Artista: @lunabuschinelli
Website Artista: www.lunabuschinelli.com
Créditos das fotos inseridas na capa e na galeria: cortesia da Artista.
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