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SHE WOLF convida MARIÊ

  • giuliallupo
  • 6 de mar.
  • 4 min de leitura

Há artistas que falam sobre técnica. Outras falam sobre mercado.

MARIÊ fala sobre coragem.


Nesta entrevista, ela não romantiza o caminho. Fala sobre insegurança, sobre a dificuldade de se reconhecer artista e sobre o peso que recai sobre mulheres que ocupam o espaço público. Fala, sobretudo, da resistência que é existir na arte urbana sendo mulher.


Entre os relatos, porém, surge uma palavra que se repete como um mantra: ACREDITAR.


Mais do que uma conversa sobre arte, esta é uma reflexão sobre liberdade, sensibilidade e presença. Sobre desfrutar o processo. Sobre desaprender a duvidar de si mesma.


Leia a entrevista completa e entenda por que, para MARIÊ, ser artista urbana é um ato contínuo de enfrentamento, resistência e amor.


Capa de revista com mural rosa e titulos

O que o seu eu de hoje diria para o seu eu do passado?

Eu diria para ACREDITAR. Acho que eu demorei muito tempo para me aceitar como artista e ter confiança no meu trabalho. A insegurança e falta de auto estima de uma jovem mulher nessa sociedade que está nos tentando podar o tempo inteiro com certeza foi uma barreira e atrapalhou um pouco meu desenvolvimento enquanto artista. E acho que por reconhecer isso eu busco sempre incentivar outras mulheres e ajuda-las a transpor esse empecilho que está aí, como uma doença na sociedade.

 



No que você acredita?

Acredito no poder do amor, quando você ama o que faz, não importa o que seja, esse amor faz ser possível.

 

Seu trabalho tem te feito feliz? Seu trabalho já fez outras pessoas felizes?

Quero acreditar e acredito que sim! Receber um sorriso e todas as trocas que tenho durante os projetos que faço é com certeza a coisa mais enriquecedora que meu trabalho me proporciona. Mudar a vida das pessoas através da arte é um privilégio e observar que através dela as pessoas ficam felizes, se inspiram, refletem sobre as questões propostas e enxergam novas perspectivas me faz um ser humano realizado e também feliz. Acho que essa é minha forma de mudar o mundo, de propor uma nova realidade.

 

Você tem um lema pessoal que orienta a forma como você vive ou trabalha?

Acho que tenho aprendido a desfrutar do processo, e estar nele presente, sem tanta ansiedade pelo resultado. Tenho me permitido errar e também a experimentar mais, sem a pressão de ter que fazer uma obra-prima toda vez que me proponho a produzir, sem tanto juízo crítico. E tenho observado que o ouro está aí.

 

Qual foi a situação mais complexa que você já viveu profissionalmente?

Falta de respeito com artistas é algo infelizmente corriqueiro, acho que posso escrever um livro sobre situações de falta de estrutura, de cuidado com profissionais da arte (especialmente muralistas) e desrespeito. Além de tudo isso, quando se é mulher ainda lidamos com assédio. Não conheço NENHUMA mulher artista que não tenha sofrido múltiplos episódios de assédio na vida e também no trabalho.

 

Ser artista mulher é algo muito delicado, pois sinto que o mundo é hostil, as cidades não são projetadas para nela transitarmos, estamos expostas o tempo todo. Não temos a mesma liberdade que os homens nem para estar nas ruas, quiçá trabalhar sem temer pela nossa própria integridade física. Ser artista urbana é por si só um ato de enfrentamento, RESISTÊNCIA e CORAGEM.

 

E de forma mais direta, na maioria das produções que participo a equipe é majoritariamente formada por homens, e principalmente alguns que estão numa posição de “poder” acabam passando dos limites e causando situações de desconforto e mesmo assédio.

 

O que você considera ser a melhor coisa do Brasil e a pior?

A melhor é o povo, que além de acolhedor e caloroso, produz essa rica variedade cultural que aportamos. E a pior é a falta de segurança, educação de qualidade e a desigualdade social.

 

Como você se reinventa em um mundo em constante mudança?

Acho que a reinvenção é natural e iminente quando se está em movimento, quando se é uma pessoa curiosa. E acredito que é característica do artista ser inquieto e curioso. E também desconfortável, incomodado com o que lhe cerca. O artista é artista não porque é criativo, mas sim porque é sensível. Somos atravessados de uma maneira mais intensa pelas coisas que nos acometem, pelas injustiças sociais, pelas vissitudes apresentadas. E a arte é uma resposta para todo esse atravessamento, é consequência. Estamos sempre em busca de novas ideias, culturas, situações, conexões, histórias, emoções e sentimentos. Isso nos alimenta e nos faz refletir, propondo uma mudança constante.

 

O que você desaprendeu ao longo da sua trajetória?

A duvidar de mim mesma.

 

O que você diria a quem está começando agora no mundo da arte?

A arte é LIBERDADE; não se prenda numa estética, em desenvolver uma identidade, isso vem com o tempo - e também se transforma com ele. Abra sua mente, coloque amor nisso, estude, seja fiel a si mesma(o) e principalmente ACREDITE - mesmo quando você achar que está sozinha(o) nisso!

 

O que você acha que um artista nunca deveria fazer?

Se comparar. Pois cada pessoa tem sua trajetória, sua história e vivência e é isso que a torna única e especial, fazendo com que sua produção seja fiel a si e verdadeira, aportando algo novo para o mundo. O que funciona e faz sentido para uma pessoa pode não fazer para você.

 

Como você se imagina daqui a dez anos?

Me imagino em cima de um lift, pintando um mural em algum lugar distante no mundo que ainda não tenha estado, levando minha mensagem através da arte, como ferramenta para mudar o mundo, tornando um lugar mais equalitário e confortável, especialmente para grupos minoritários.




Instagram Artista: @mariebalbinot

Website Artista: balbinotmarie.com.br


Créditos da imagem na arte na capa: cortesia da artista.


 

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